Nos últimos anos, o debate a respeito da mobilidade urbana amplia seu alcance e conquista pessoas cada vez mais interessadas no assunto. Em contrapartida, o poder público, financiado pelo interesse do grande capital, ao invés de priorizar o tema, insiste na manutenção e promoção do status quo.
GRANDE SÃO PAULO
Quando falamos de mobilidade urbana, imediatamente ilustramos o assunto com as dificuldades vividas pelos paulistanos para se locomoverem na cidade de São Paulo: congestionamento de carros, ônibus lotado, linhas de metrô e trem insuficientes e ausência de ciclovias. Entretanto, tais problemas ultrapassam os limites do município e são compartilhados pelos moradores das cidades vizinhas que compõem a metrópole, especialmente Guarulhos e região do ABC.
Em Guarulhos, por exemplo, não há linhas de metrô nem de trem, apesar da localização do maior aeroporto da América do Sul. Não há adequada oferta de linhas de ônibus para grande parte da população que trabalha e estuda na capital. E, além disso, a Rodovia Presidente Dutra – principal rota de ligação entre as cidades – já conta com tráfego intenso de veículos, em horário de pico, nos dois sentidos.
Somam-se a esses fatores, a expansão imobiliária pautada na especulação do mercado e não em planejamento urbano. Essa verticalização irresponsável do espaço público tende a agravar ainda mais o cenário da mobilidade na Grande São Paulo.
Diante desse contexto, fica difícil apostar em mudanças a curto-prazo. O contexto é extremamente complexo e recheado de práticas e interesses obscuros. Ainda assim, poderíamos no mínimo cobrar e estimular ações que estivessem alinhadas a caminhos orientados ao desenvolvimento da cidadania e do direito à Cidade.
UM CAMINHO
Nessa linha, proponho que discurso e prática de mobilidade urbana respondam a algumas premissas. Em primeiro lugar, a avaliação dos problemas e a proposição de soluções e alternativas devem ser conduzidas pela metrópole-como-metrópole, ou seja, em conjunto com as cidades que compõem a Grande São Paulo. Fácil? Não. Certamente um dos principais impasses diz respeito à atual conjuntura dos partidos políticos no país.
Outro ponto de fundamental importância trata do investimento no transporte sobre trilhos (metrô, trem, monotrilho…). Além de potencializar o investimento de tempo e dinheiro, deve-se redobrar a atenção ao cumprimento dos contratos de Parcerias Público-Privada já existentes e reavaliar a continuidade da aplicação desse modelo para futuros projetos. A Linha 4 (amarela) do metrô de São Paulo é um exemplo pertinente que ilustra bem a gestão das PPP, neste caso entre o Governo do Estado e a empresa Via Quatro. O resultado são os atrasos nas obras e a operação parcial, de algumas estações entregues, em horários que não atendem a maioria da população.
A terceira e última premissa se refere ao transporte viário. Enquanto a “revolução sobre trilhos” demanda de longo prazo, uma profunda mudança nas ruas e avenidas pode começar imediatamente, a partir da definição de níveis de prioridade dos investimentos, por exemplo:
Prioridade total: direito ao pedestre usufruir integralmente do espaço público – inclui o acesso irrestrito aos deficientes físicos (cadeirantes, cegos, etc).
Prioridade alta: transporte público (ônibus). Ampliação e construção de novos corredores de ônibus, todos com duas faixas (operação e ultrapassagem) como garantia de velocidade. Revisão das linhas e melhorias no preço e conforto do passageiro.
Prioridade média: adaptação de faixas de automóvel exclusivamente para ciclovia – e não apenas ciclofaixas aos finais de semana ou construídas sobre canteiros centrais ou calçadas.
Prioridade baixa: automóvel: fiscalização da emissão de gases, recapeamento de vias, obras de trânsito para manutenção e de baixo investimento.
Enfim, o grande desafio para o caminho proposto não diz respeito apenas às questões políticas ou de infraestrutura (investimentos). Acredito que a raiz do problema ainda está ligada aos aspectos culturais relativos a antigos símbolos de status e de desenvolvimento, como o asfalto, concreto, o infinito crescimento, o símbolo do automóvel e o sonho americano…
Vamos pensar mais nisso?